Sozinho com todos

memorias

 

Foi assim, de repente mesmo. Ninguém estava esperando por aquilo. Não houve nenhum profeta anunciando a data exata. Nenhum povo antigo e místico havia previsto que aconteceria naquele dia exato.

Bernardo chegou a sua casa às 12h30min para almoçar. Quando abriu a porta da cozinha, sentiu, como diversas vezes antes, o silêncio golpeá-lo o corpo e a mente. Involuntariamente, olhou para o calendário como fizera de manhã ao acordar. 23 de dezembro de 2021. Hoje completariam exatos nove anos de casados. Sentiu mais uma vez aquela rotineira dor excruciante da saudade.

Tocaram a campainha. Ao atender, ele apenas conseguiu ver um homem de terno antes que este pusesse algo em seu rosto e Bernardo ficasse inconsciente. O que não imaginava é que aquilo estivesse acontecendo com todas as pessoas do mundo.

Parece que Bernardo estava vendo um filme da própria vida. Mas não era como se estivesse em uma sala de cinema. Ele estava dentro do filme. Pensava naquela possibilidade de que quando morremos vemos nossa vida passar diante de nossos olhos. Achou que seria uma grande quantidade de informação em pouco tempo. Apenas flashes. Aquilo era detalhado demais.

Lá estava ele na pré-escola. Sentado numa mesa rodeado de colegas sem dar muita atenção a eles. Olhava para um garoto que sentava sozinho em um lugar afastado. Levantou-se de onde estava e foi fazer-lhe companhia. Aquele foi o dia em que conheceu John, seu melhor amigo. E então a cena mudou.

Agora era um dia do colégio. Já tinha seus 14 anos. John, ele e dois outros meninos, de cujos nomes não conseguia se lembrar, andavam pelos corredores da escola com uma pose de marrentos. Foram até um grupo de garotas. Havia duas novatas ali.  Os outros garotos começaram a fazer brincadeiras inconvenientes com elas, mas Bernardo não parava de encarar uma das calouras. Ela até que era bonitinha. Foi o dia em que conheceu Alexa.

Depois de outra mudança de cenário, continuavam no colégio. Mas agora os garotos estavam com seus dezessete anos. Bernardo, John e Alexa faziam um trabalho em grupo e riam alto. Quem imaginaria que eles fossem se tornar tão grandes amigos? John saiu por algum motivo o qual ele não lembrava. Bernardo estava sozinho com Alexa agora. Estavam cada vez mais perto um do outro e sorriam nervosos. De repente, em um lampejo de atitude que não era típico dele, o garoto beijou-a.

Agora o tempo pulou bastante. Bernardo estava com vinte e sete anos. O cenário que o cercava era um dos mais bonitos, típicos de filme. Havia pétalas de flores por todo o apartamento. Fotos dele e Alexa nas paredes no apartamento que dividia com John. O amigo prometera passar o dia fora para que ele fizesse a surpresa. Então, ela abriu a porta. Uma mão foi ao rosto e ela começou a chorar. Bernardo ajoelhou-se e fez o pedido. Alexa aceitou e o abraçou. Beijaram-se. O casamento aconteceria dentro de oito meses.

Lá estava o casamento. A decoração, feita pela irmã de Alexa, estava mais do que perfeita. Eles já se encontravam na festa. John estava fazendo o brinde. Falava sobre diversas situações engraçadas pelas quais passou com os recém-casados. Mal terminou, o pai de Bernardo desmaiou. Pânico na festa. Alguém ligou para uma ambulância. No dia que deveria ter sido o melhor da sua vida, ele havia descoberto que o pai estava com câncer.

Mais uma mudança de cena. Já estava casado há mais de três anos com Alexa. Seu pai falecera havia cerca de cinco meses. Bernardo entrara em estado de depressão e por isso estava afastado de todos, inclusive da esposa. Mas nesse dia, ele tinha decidido mudar aquilo. Saiu de casa, comprou flores e foi até o trabalho dela. Iria fazer uma surpresa. Ele seria o mesmo marido dedicado de antes. Tudo voltaria ao normal. Quando chegou ao estacionamento, passou perto do carro dela e percebeu que algo se mexia lá dentro. Ao aproximar os olhos do vidro do carro, viu sua mulher e seu melhor amigo juntos. As flores foram ao chão. Não houve outra cena.

Quando acordou, estava sentado em uma cadeira em um local totalmente deserto a não ser pelo homem de terno a sua frente, também sentado.

– Onde é que eu estou? Quem é você? – Bernardo perguntou.

– Você foi retirado. – respondeu o homem, impassível.

– O que? Retirado de onde?

– Da existência.

– Do que você está falando? Eu fui retirado da existência? Eu morri? Quem é você?

– Todos foram. O ser humano foi uma criação errônea nossa. Decidimos reparar o erro.

– Eu não estou entendendo. Dá pra responder quem é você?

– Isso é irrelevante. O mundo, como você conhece, deixou de existir. Você também. Aqui é uma espécie de limbo. Em breve, você não mais estará em lugar algum. Assim como todos os outros.

– Por que eu vi tudo aquilo?

– Decidimos retirá-los sutilmente daquilo. Decidimos mostrá-los mais uma vez como é ser um humano.

– Mostrando algumas das piores coisas que já me aconteceram.

– Mostrando as coisas que o fizeram se sentir vivo. Sentir-se humano. Criamos vocês para que desfrutassem do mundo que também criamos. Ao invés de fazê-lo, vocês prenderam-se na mediocridade. Teoricamente, vocês se desenvolveriam indefinidamente. Vocês acabaram fazendo isso, mas não da maneira correta. Vocês viraram-se uns contra os outros. Vocês formaram laços e os quebraram tão facilmente. Vocês tornaram-se seres tão frágeis e ridículos. Vocês poderiam ter tudo e jogaram isso no lixo. O suposto amor que faria com que vocês se transformassem em melhores acabou fazendo o oposto.

– É o fim da humanidade, então?

– É o fim das guerras, dos desastres, do sofrimento. Infelizmente, a humanidade sempre foi o sinônimo de tudo isso. Antes de você ir, eu gostaria de fazer uma pergunta. Se pudesse mudar alguma coisa em sua vida, o que seria?

Depois de pensar por alguns instantes, Bernardo respondeu:

– Absolutamente nada. Eu tive um melhor amigo que sempre esteve lá por mim até que não estivesse mais. Tive uma pessoa que me amou até que não me amasse mais. Tive uma boa vida até que não tivesse mais.

– E isso foi bom?

– Foi até que não fosse mais.

– Você não parece estar tão triste por tudo o que eu disse.

– Você disse que eu deixarei de existir, mas isso já aconteceu há muito tempo.

Depois de algum silêncio, Bernardo disse:

– Então é assim que o mundo acaba? Estou me sentindo um pouco patético.

– O que você esperava? Que os idiotas dos maias estivessem com a razão? Como se alguns de vocês pudessem realmente entender o mundo.

E então tudo escureceu.

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